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É só a escuridão da incerteza do amanhã

Balance ilustrada pela poesia belíssima de Carlos Eduardo Leal.

balance-ass

Balance – aquarela sobre papel – ano 2016

Equilibrava-se sobre a tênue esperança guiado pela festa anterior.

Tinha a lua por companhia, mas era dela que sentia falta.

Dentro de si olhava para a lua

E pensava: Ela irá aparecer por detrás da nuvem rosa

Ela irá aparecer para me enfeitiçar

Se eu conseguir permanecer com os guizos de Arlequim

Ela virá cantando baixinho um jazz na madrugada dos meus sonhos.

Sim, ela virá depois da terceira onda deste azul que nos encobre.

Ela virá com seus olhos tristes

Então ela sorrirá porque eu beijarei a tristeza do olhar

Para que eles se abram prevendo que o frágil equilíbrio

É só a escuridão da incerteza do amanhã.

CEL/2016

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O livro sobre nada

calmaria

Calmaria (lápis de cor sobre canson)

“É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.
O que sustenta a encantação de um verso (além do ritmo) é o ilogismo.
Meu avesso é mais visível do que um poste.
Sábio é o que adivinha.

Contemplação

Contemplação (nanquim/grafite sobre canson)

Para ter mais certezas tenho que me saber de imperfeições.
A inércia é meu ato principal.
Não saio de dentro de mim nem pra pescar.
Sabedoria pode ser que seja estar uma árvore.
Estilo é um modelo anormal de expressão: é estigma.
Peixe não tem honras nem horizontes.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas quando não desejo contar nada, faço poesia.
Eu queria ser lido pelas pedras.
As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.

Amanhecer

Amanhecer (lápis de cor sobre canson)

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Esta tarefa de cessar é que puxa minhas frases para antes de mim.
Ateu é uma pessoa capaz de provar cientificamente que não é nada. Só se compara aos santos. Os santos querem ser os vermes de Deus.
Melhor para chegar a nada é descobrir a verdade.
O artista é erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
Por pudor sou impuro.
O branco me corrompe.
Não gosto de palavra acostumada.
A minha diferença é sempre menos.
Palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria.
Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora. ”

-Manoel de Barros

(ilustrações disponíveis – contato:lucianevalenca@gmail.com)

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